A vida está no sangue, diziam os
cristãos.
Nesse
caso, o demônio se apossou de parte da minha. De uma grande parte, diga-se de
passagem. Passei os dias e noites seguintes oscilando entre a consciência e o
sono, esse último, vencendo-me na maior parte do tempo. Podia ouvir meu coração
batendo de forma acelerada, como em um canto desesperado de morte. Sentia-me
gélida, cansada e fraca.
Como som
de fundo, ouvia o girar das rodas de uma carruagem, assim como o som dos cascos
dos cavalos. Muitas vezes, reconhecia a voz de Marjorie, falando coisas que eu
não conseguia compreender totalmente, ou ninando-me como a uma criança. Sentia
seu cheiro, seu calor, ou simplesmente suas mãos administrando algum líquido de
odor estranho por minha boca.
—
Beba tudo, minha querida. — Ela dizia, enquanto me fazia beber uma de suas
poções. — Precisamos que esteja forte, até chegarmos ao nosso destino.
Eu
não tinha condições de discutir, minha raiva se traduzia em tentar empurrá-la
com meus braços sem força, ou mover a cabeça, recusando seus remédios. Como era
de se esperar, tudo em vão. Depois de algum tempo, percebi que estava em uma
cama, e que ela balançava ritmadamente. Após a terceira vez que vomitei, me dei
conta de que se tratava de um navio. Pelas conversas que ouvia entre a criada
que cuidava de mim e outros tripulantes, estávamos deixando a Grã-Bretanha. E
eu sabia, infelizmente, que não era rumo a minha querida Irlanda.

