quarta-feira, 11 de maio de 2016

Vampira Charlote - Parte I


Eu escrevo.

Escrevo para todos, e para ninguém. Escrevo para meus fantasmas, e também para mim mesma. Escrevo para vivos e mortos. Escrevo na tentativa de aliviar a dor que carrego, minha eterna maldição. Escrevo na esperança de ser lida em um tempo em que me revelar não represente uma ameaça... ou seja, um tempo que nunca virá.

Como disse antes, escrevo para ninguém.

Minha história começa há alguns séculos, mais precisamente, em 1670. Eu era uma jovem de dezoito anos, inexperiente, inocente e ansiosa por descobrir o mundo! Sim, tola, como todos os jovens são.    

— Me chamo Charlote, Charlote Berthory. — Disse eu, cumprimentando aquela elegante mulher, receosa de cometer alguma gafe quanto a etiqueta dos ingleses. — E é um prazer conhecê-la, senhora Williams.

Após um tempo que pareceu uma eternidade, e um olhar que parecia me escrutinar até a alma, ela sorriu e respondeu:

— Encantada, Charlote. Mas por favor, me chame apenas de Marjorie, pois espero que possamos aproveitar um pouco a companhia uma da outra.

Marjorie...a mulher que mudaria minha vida para sempre.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Capítulo Final - A Esposa do Demônio


É uma noite fria, em que densas nuvens choram sobre corpos de vivos e mortos. Diante do castelo, um espetáculo de sangue e morte que somente seu amado é capaz de proporcionar. O som de carroças e cavalos, disparos de mosquetes e de bestas, gritos de homens e animais em pânico... Ela assiste a tudo isso sem muita esperança, algo em seu coração, dizendo que é o fim. Adam partiu para o campo de batalha, determinado a exterminar cada um daqueles muitos homens que ameaçam sua casa.

Na defesa do castelo, apenas uma dúzia de homens. Gente da própria região, muitos na verdade são maridos ou filhos das empregadas, que o casal contratou há poucos anos. Foi um duro golpe para Marie ver que dentre os doze guardas, cinco fogem com seus parentes (e alguns espólios) ao ver a aproximação dos inimigos, e os outros sete resolvem mudar de lado quando ouvem que seus patrões são “uma bruxa e um vampiro”. Bruxa, a desculpa perfeita para que aqueles homens “leais e obedientes” de antes, se achem no direito não só de traí-la, mas também violá-la, para só depois entregá-la aos invasores. Infelizmente para eles, Marie Winnicott tem uma espada, e sabe usá-la muito bem.

Passados alguns minutos, é com pesar que ela puxa a espada do peito do último dos traidores, não esperava que o respeito e generosidade dela para com eles valesse tão pouco. Sete corpos espalhados pelas escadas antes mesmo que os inimigos entrem. Na verdade oito, pois uma das empregadas não reagiu muito bem ao encontrar o corpo do marido pelo caminho, e decidiu que seria ela mesma a vingar seu amor. Não durou muito. Quando os inimigos chegaram, não houve resistência alguma para além de uma jovem surpreendentemente bela, com uma espada em mãos e um coração determinado.

Ela sabe que Adam faz o impossível lá fora, mas as vezes, mesmo o impossível é insuficiente.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Capítulo 22 - Os Laços que nos Unem



René avança.

Agora com a espada em uma mão e uma adaga na outra, utilizando todo conhecimento marcial acumulado em seus séculos de existência.

— Desista. A essa hora já devia ter percebido que não é um adversário digno. — Adam diz, após desviar de um ataque giratório e desferir um corte que pega da parte superior do tronco até o rosto do adversário.

René perde o equilíbrio e cai no chão. Sangue flui farto de seu olho e lábio esquerdos, agora cortados, encharcando sua blusa rasgada e o que restou de seu terno. Adam observa a vampira, sempre atenta aos seus movimentos, enquanto mantém Claire sob a mira de uma arma e de presas semi-encravadas. O obstinado vampiro se ergue novamente, apoiando-se na espada, com sua pele aos poucos regenerando todo dano sofrido.  

— Pardon, mas é difícil para mim parar quando estou no auge da diversão. — Ao dizer isso, o vampiro começa a emanar uma aura ainda mais intensa.

É visível para Adam que o vampiro não só usa o sangue para regenerar seu corpo, como para ampliar seus atributos físicos, o deixando mais poderoso que antes. Algo que deseja encerrar. Assumindo a forma de um enxame, o filho do Drácula parte para cima de seu adversário, com o som de centenas de pequenos demônios alados confundindo seus sentidos, para em um último momento assumir sua forma real, desferindo um golpe capaz de decapitá-lo!

E é ai que tudo acontece, e em um piscar de olhos.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Capítulo 21 - Sem Medir Consequências



O Golem está dentro.

Do alto da parte superior da velha igreja, em uma área interligada por colunas e sacadas ornamentadas, o mascarado encontra seu alvo: Mandy Duncan. A adolescente está nua, grossos braceletes de prata prendendo seus pulsos, tornozelos e pescoço, de cabeça baixa e postura ereta e iluminada apenas pela luz de velas, enquanto é banhada por um homem vestindo um manto escarlate. O banho consiste em um jarro cheio de sangue sendo lenta e cerimonialmente derramado sobre a cabeça da jovem, em um ritual profano. O homem tem cabelos negros, pele muito branca e unhas proeminentes. Seu manto possui adereços dourados, bordados em ouro e formando desenhos intrincados. O Padre, com certeza. Próximos aos dois, quatro garotas portando armas, metade com lâminas, metade com fuzis, formando um círculo em volta do religioso e seu sacrifício.

O padre vampiro parece encerrar seu ritual, por um momento afastando-se da jovem estática, que agora é vestida por uma das garotas. A chance que ele esperava. O Golem salta em direção a refém, parando a meio metro do chão (seguro por um cabo com arpão), em seu movimento de descida, quebrando o pescoço da inimiga mais próxima, para em seguida ser puxado de volta pelo cabo enquanto pega a loba pela cintura. Tudo muito rápido, para espanto dos presentes. Uma vez de volta ao alto e com seu prêmio, o Golem ativa a música: sua melodia característica, vinda de gravadores posicionados em diferentes trechos do caminho trilhado. O Padre apenas observa enquanto a dupla de fuzil dispara na direção do invasor e a jovem de faca corre ao auxílio da amiga moribunda.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Capítulo 20 - Missa Noturna


Catelo Tepes.

O vampiro adentra o salão secreto onde guarda suas maiores riquezas materiais. Desde o mês em que retornou dos mortos que não volta a esse lugar, e embora uma parte delas foram leiloadas por Lincoln, para levantar o dinheiro necessário para recomeçar sua vida no tempo atual, e outras foram espalhadas pelos cômodos do castelo, para sua surpresa, continua impressionante a visão das relíquias que esse cômodo guarda. Lincoln observa com preocupação seu mestre parando diante de uma velha arca fechada, seu objetivo ao voltar aqui. Destrancando calmamente a fechadura que prende a tampa, o vampiro é iluminado pelo brilho prateado do objeto que lá reside.

O mordomo se aproxima trazendo um par de luvas brancas, que o vampiro calça, antes de finalmente retirar o objeto de lá. Uma espada. Lâmina de prata, maior e mais pesada do que um homem poderia manejar com uma só mão. Não que para um vampiro como ele isso faça diferença.

Faz trezentos anos desde que empunhei você pela última vez, pensa ele, a única coisa que herdei do meu pai, para além do seu sangue e maldição. Assim como o instrumento de sua morte.   

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Capítulo 19 - Quando a Noite Cai


Bleak Hill.

Ela corre pela noite escura, com seu pelo cinzento recobrindo seu corpo meio humano–meio lupino, escondendo sua forma monstruosa dos olhares da gente comum. Após correr sem parar até se afastar o suficiente do hospital, Evelyn se deixa enfim cair sobre a grama fria. A sensação é agradável, e ela permanece assim, deitada e de olhos fechados, por algum tempo. As roupas se rasgaram durante a transformação (assim como o pescoço de uma enfermeira que viu mais do que devia), mas ela ainda teve tempo de roubar o celular da mulher antes de saltar do 3° andar do prédio. A fuga cobrou seu preço: a perna que já estava ferida pelo tiro, piorou após a queda, junto do braço em que se apoiou para não bater de cabeça no chão.

Eu tô acabada. Os tiras me reconheceram na mecânica, os médicos também... — Ela pensa, enquanto se senta e olha para o celular. — Tenho de dar o fora dessa cidade.

Ela observa ao redor, e não vendo ou sentindo ninguém, se arrasta até uma árvore na qual se escora, esperando o corpo se recuperar dos estragos.

Só mais um pouquinho... e ai eu posso seguir a viagem como loba. Ainda posso me juntar ao bando...ao Malcon. Depois é dar adeus a esse lugarzinho de bosta e minha vida dupla. Dar adeus a universidade, dar adeus a ... Claire.

Ela suspira enquanto disca um número no celular, totalmente ignorante quanto aos olhos que a observam na escuridão.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Capítulo 18 - Damas em Xeque


Cemitério de Santa Margareth, 19h00.

É uma noite abafada, com uma chuva fraca e inconstante caindo sobre aqueles que velam os mortos. Um enterro em uma cidade pequena é sempre um acontecimento, e a quantidade de pessoas presentes não deixa a desejar. Uma multidão de rostos apáticos em trajes negros, é essa a visão que Adam encontra ao sair de sua limousine, uma multidão de olhares curiosos e comentários maldosos, mas tudo isso não foge do esperado. Ele faz cumprimentos contidos e educados enquanto abre caminho por eles, em um terno preto como seus cabelos presos, se esforçando para demonstrar pesar pela morte do jovem Barry Freeman, ao invés de sorrir agradecido por quem quer que tenha feito isso.

Deixo de matá-lo, e mesmo assim ele morre tão pouco depois. Algumas coisas simplesmente tem que ser, Adam pensa.

— Meus sentimentos, senhor Freeman. — Ele diz, enquanto aperta a mão do homem grande e gordo, mas hoje, seriamente abatido. — Que sua família possa encontrar a ... — Sua voz é cortada quando o homem o puxa para um abraço que deixa o vampiro desconcertado.

— Obrigado por vir, Tepes. — diz Wally Freeman, olhos fundos de muito chorar — Fiquei sabendo que meu garoto e você andaram se estranhando, por isso eu fico grato de verdade por ter vindo ao funeral dele.

Observando à tudo, a verdadeira responsável pela morte do jovem cujo corpo foi devorado, e que a polícia só encontrou os ossos recentemente: Evelyn. Ela se diverte intimamente com a cena, deliciando-se em seu papel de amiga sofrida. Em um conjunto preto ousado, encara o vampiro contra o qual lutou faz pouco tempo, imaginando o que ele faria se soubesse o que ela é realmente.

— Evelyn, pelo menos disfarça. Dá pra notar seu sorriso. — Reclama Claire, beliscando o braço da amiga. Claire está em um vestido preto formal, com seus cachos loiros em coque, sem nenhuma joia e com maquiagem leve. Está magoada com o rapaz, mas ainda se lembra de como foram amigos quando crianças.

— Tô aqui rindo da sua cara, quando o Conde Drácula vier falar com você. — Ela diz, estudando a face da amiga, notando o nervosismo e ansiedade misturados nela. — Só espero que não esqueça o que ele te fez, e vá querer fazer papel de otária.

— Como se eu pudesse esquecer...